Estância Santiago, a mais antiga da Fronteira-Oeste, é tombada pela Prefeitura de Uruguaiana

Na manhã do dia 13 de junho, segunda-feira, no Salão Nobre da Prefeitura de Uruguaiana, o Prefeito Luiz Augusto Schneider assinou o Decreto nº 347-2016, que “determina o tombamento da área das ruínas da Estância Jesuítica Santiago”.

Em 1657, os padres jesuítas da Redução de Japeju (R.A.) trouxeram 1000 cabeças de gado da Estância San Andrés (R.A.), transpondo o rio Uruguai no Passo do Aferidor e assentaram-nas numa coxilha junto ao arroio Puitã (BR), dando origem assim à Estância Santiago, cujo nome foi uma homenagem ao Santo Padroeiro de toda a Espanha.

A escolha do local deveu-se, além da proximidade das demais estâncias jesuíticas, à excelência das pastagens e a abundância de água, bem junto ao vau seguro e facilmente vadeável à cavalo (Aferidor), o que permitia cruzar as tropas sem transtornos, de uma banda a outra do rio.

Essa estância, logo depois, abrangeria toda a área situada entre os rios Uruguai, Ibicuí, Ibirapuitã e Quaraí. A sua criação surgiu como uma necessidade de formação de um ponto de exploração econômica, em face da ausência de minerais, do comércio limitado, da ocorrência de secas e pragas nas plantações, das ameaças dos bandeirantes paulistas, mas, principalmente, serviu como fator de fixação dos Guarani nas reduções. Com efeito, os padres organizavam todas as atividades de manejo do gado, como a contagem, castração, marcação, doma, entoure das vacas e aparte do gado para consumo dos índios da Redução de Japeju, cuja população continuamente aumentava, sendo a carne a principal fonte de alimentação. Para tanto, treinavam os capatazes (os próprios índios) para organizar e coordenar os peões (índios), que desde cedo, logo após a missa diária, eram engajados em todas as atividades, que tinham por norma a disciplina rigorosa, que com a religião, servia de pilar da doutrina inaciana.

A capela da Estância, inicialmente construída em taipa com cobertura de capim, e posteriormente substituída por pedra trabalhada, apresentava uma arquitetura simples e retangular, recebeu o mesmo nome do Santo Padroeiro Santiago, e, como praxe em todas as capelas, internamente havia um crucifixo e a imagem do orago.

Pela importante posição estratégica, a Estância Santiago constituía também uma espécie de posto avançado para defesa e vigilância, localizada sobre uma coxilha que se destacava como posto de observação privilegiado, permitindo a intercomunicação entre os vários pontos de toda a região da Redução de Japeju, inclusive através de grandes fogueiras que se acendiam à noite, quando necessário.

No ano de 1694 os padres da Redução de Japeju fundaram outra estância – chamada São José, – que se estendia do rio Quaraí até o rio Negro, na atual República Oriental do Uruguai. Alguns anos mais tarde, essas duas estâncias (Santiago e São José) foram aglutinadas, constituindo a chamada Estância Japeju, que se revelou como a maior de todas as estâncias jesuíticas no século 18, cobrindo cerca de 65.000 quilômetros quadrados, reunindo 500.000 cabeças de gado. A sede principal da Estância Japeju teria sido a própria Estância Santiago.

Nas enormes mangueiras de pedra, construídas com o suor dos Guarani, a gadaria era amansada, loteada e marcada, antes de ser transferida para as demais estâncias e reduções.

Em 1768 os jesuítas são expulsos da América pelo Rei Carlos III, da Espanha. Os padres deixam os Guarani a mercê dos espanhóis, ocasionando a decadência espiritual e material das reduções. A Estância Santiago foi pilhada pelos espanhóis e portugueses.

Com a conquista das Missões em 1801 por Borges do Canto e seus companheiros. A Estância foi abandonada pelos espanhóis. Na Estância Santiago arranchou, em 1819, por compra, o açoriano Manoel José de Carvalho, estabelecendo aí a sede de sua estância, que chamou de Japeju. A Estância teve suas construções destruídas na metade da década de 80 (século 20), quando o proprietário do imóvel na época vendeu grande parte de suas pedras para outro produtor rural, conivente, construir uma barragem.

Da antiga Estância Santiago, localizada às margens da BR 472, km 50, em direção à Itaqui, restam ainda as ruínas da capela, três currais e um poço d’água (todo o conjunto em pedra-basalto). A Estância San Javier, no atual Município de Porto Xavier-RS, fundada alguns meses antes da Estância Santiago (2ª), também em 1657, é considerada a mais antiga do Rio Grande do Sul. Em 1983, quando as construções ainda estavam quase intactas, o historiador Raul Vurlod Pont solicitou junto ao Executivo o tombamento da Estância. Pont faleceu em 1998.  “Como gestor público, tenho a obrigação de proteger monumentos de valor histórico como a Estância Santiago” enfatizou o Prefeito Schneider. Dagoberto Alvim, historiador e autor do livro “A Mão dos Jesuítas – A Herança Jesuítica no Município de Uruguaiana”, desde 2004 lutava pela proteção da estância: “precisamos preservar e valorizar o nosso rico patrimônio histórico-cultural e para isso, o tombamento é imprescindível.”

Já consolidado como ponto turístico e integrando a “Rota Jesuítica”, é o local histórico mais visitado do interior do Município. O Secretário de Indústria, Comércio, Turismo e Trabalho, Jorge Prestes Lopes, acredita que o tombamento criará uma demanda de atividade turística no Município, sendo o 1º passo para pleitear recursos estaduais, federais e até mesmo internacionais para a preservação e divulgação do local.

O agropecuarista Jorge Omar Borges Ferreira, proprietário da área de 38 hectares onde encontram-se as ruínas, protegidas por ele desde o ano de 2000, quando adquiriu por compra, já esperava o tombamento: “mais cedo ou mais tarde, o local seria tombado.”

Redação: Dagoberto Alvim Clos

Foto: Moacir Scherer

 

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